CRÍTICA TEATRO - Percepções em Conexão




TEATRO: EU QUERO SER UMA LOCOMOTIVA Por Ramina El Shadai Com uma ficha técnica digna de frenagem, Eu quero ser uma locomotiva não veio para responder nada, enquanto convida a uma sutil alteração do lugar de onde olhamos algumas perguntas. Nada de pensar em conclusões! Algo absolutamente político, humano, espiritual. A passagem de uma locomotiva abre caminhos, conecta lugares, transporta pessoas e tempos diferentes em um mesmo corpo de ferro. Um símbolo que permanece tão vivo que, embora sugira velocidade, aqui, também revela potência. A potência de sustentar os trânsitos, quando a vida já não cabe em velhas referências. Um antigo cenário que não sustenta mais nossas atuais experiências, desejos, relações. Ainda assim, uma sensação silenciosa de desencontro, como se soubéssemos muito sobre o funcionamento da vida e, paradoxalmente, habitássemos quase nada a própria existência. É nesse ponto que a arte me encanta, em seu posicionamento tão ancestral. Sem intenção de explicar, e com toda expansão da possibilidade de perceber. Um silencio é quebrado quando Neise canta, por uma força que a leva a cantar. Uma presença difícil de explicar. Sua voz desloca o tempo e, em alguns instantes somos lançados para uma memória que parece coletiva, dessas que não sabemos se vivemos ou herdamos. De repente, estamos completamente mergulhados no agora. É forte perceber que a peça não polariza o antigo e o contemporâneo. Ela conecta. Costura tempos, linguagens, gerações e sensibilidades. E tudo dança livremente. Faz rir, comove, diverte... sem sair dos trilhos. É importante esse movimento de retirar da cena o passado apenas nostálgico e o presente como mero espetáculo. Precisamos, sim, enxergar potências. Em Eu quero ser uma locomotiva, sons, imagens, fluidez, tudo está a serviço do que realmente importa: a experiência humana. Nobre ousadia deixar uma porta aberta: a cada sessão, um ator ou atriz convidado a atravessa com um texto autoral, fazendo do “imprevisível” parte viva do espetáculo. Eu quero ser uma locomotiva é verbo interno. Desejo por perceber o que nos coloca em movimento. VÁ AO TEATRO! 🗓 3 a 27 de julho - Sexta a seg, 20h.

Comentários

Postagens mais visitadas